29 de mai. de 2007

Ele disse.



Deitado, ainda olhando o breu do teto naquele quarto escuro, outrora apenas movido pelo som do ventilador, ele disse:

- Acho que não falo de mim com tanta naturalidade, não como gostaria, não como imaginam. Eu acho a superexposição do ser algo ruim, mas como havia te dito: "eu sou quase aquilo que sempre evitei". Tento ser assim para no final não ser apenas cover de mim mesmo. É inevitável não me machucar sempre que me vejo nas linhas que escrevo. Não se expor é uma virtude, admiro isso em você, parabéns. Eu...bom, eu sou apenas humano demais: "Se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual.”

Então dormiu e não pensou mais.






21 de mai. de 2007

A caixinha dela


E então ela pegou tudo o que ele havia dado naquele dia e colocou numa caixinha de papelão. Parecia uma caixa de sapato, se não fosse por um cadeado plástico cor-de-rosa que prendia a tampa. E tudo que era dele e dela estava ali, tudo que ele a havia dado estava ali, até o pobre suspiro outrora dele estava ali. Ela disse “obrigada”, pisou na cama para alcançar o alto do seu guarda roupa e lá deixou a caixinha, por entre antigos itens empoeirados. Ele voltou para casa vazio de novo. Procurando desesperadamente por uma caixinha, até que descobre que nunca guardou algo de ninguém numa caixinha empoeirado no alto de um guarda roupas. Vai ver que o erro é ele.

15 de mai. de 2007

Rebeca Macaca.



Macaco quando muito pula, quer chumbo”. Ouvi de Olavo Carvalho certa vez. Não que a frase seja oriunda do mesmo, não que o Olavo esteja sempre certo, mas ele tinha suas razões, assim como Oswald de Andrade ao dizer que o “O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus”.

Rebeca era assim, não apenas como o Brasil, mas como o macaco saltitante também. A garota não parava (nem pairava) um segundo. O mundo era dela, o qual abraça com suas pernas1. Todo dia era dia de carnaval, para ela, claro. A garota aprendeu que não precisava de nada nem de ninguém, só esqueceu que tudo o que aprendeu se não era mentira era mentira2.

E Rebeca pulava de galho em galho, sempre dando adeus. Pulava feliz num ramo, via outro melhor e tchau. Sistematicamente. Um dia Rebeca cansou (ou, passou dos 25 anos) e foi descansar no galho mais seguro do bosque do eterno carnaval. O galho disse adeus e pulou em outra macaca3. Rebeca caiu triste. Já sem forças para pular de galho em galho (ou, nenhum galho mais a agüentava), ao léu, disposta na relva, desprovida de amparo e alento. Levou chumbo4 de um caçador que embaixo da árvore cochilava. Pois bem, meus amigos, um outro já diria, “a vida é uma piada, quem riu é porque não entendeu”.


  1. E o que fica entre elas.
  2. E vice-versa.
  3. Realidade em traje surreal.
  4. Sempre é época de caça às Rebecas.

2 de mai. de 2007

Paula Paradoxal


A história, por definição, nunca é paradoxal. A gente que não entendeu alguma coisa. Verdade meus caros, paradoxal mesmo, como o próprio sentido intrínseco da palavra. Longe de mim ser verborrágico ou desbravador do pseudo-intelectualismo. Acontece que as coisas mais simples me surpreendem, no mundo onde nada mais é surpresa.

Trocando as palavras por um exemplo real, me lembro de Paula. Quem precisava sempre de alguém no pé. Lembra do Carlão? O atleta nas horas vagas, de físico atraente, funcionário público e carismático? Pois Paula o dispensou, mesmo o coitado lambendo o chão por onde ela anda. E depois dele veio outra dispensa. Alguém Aqui lembra o Edu? Professor universitário, inteligente, simpático e muito bondoso? Pois esse foi rejeitado pela Paula também. Outro que gostava mais dela, do que da própria encarnação. Quem então agradaria a Paula? Essa perguntava sempre esteve presente nas rodas de bate papo entre os amigos.

Surge Pedro, que apesar do nome bíblico, de santo não tinha nada. Para Pedro, era um suplicio não bater na Paula todo dia. Só não chegava as vias de fato porque tinha medo de ir preso (de novo). Pedro não travava a Paula bem, isso era notório, mas Paula o escolheu. Estão juntos até hoje. Paula está grávida e vão se casar em outubro. Pedro diz “fazer o quê?” Já Paula se diz muito feliz. E eu descobri que não existe paradoxo.